Caso do pastor sequestrado choca a Malásia e expõe esquema policial após confissão inesperada

O desaparecimento do pastor Raymond Koh, em 2017, continua sendo um dos casos mais misteriosos e impactantes da história recente da Malásia. Nove anos depois do sequestro em plena luz do dia, a Suprema Corte de Kuala Lumpur confirmou o que a esposa do religioso, Susanna Liew, afirmava desde o início: o pastor foi vítima de um desaparecimento forçado conduzido por agentes da própria polícia.

A decisão, considerada histórica, reconheceu a responsabilidade do governo e determinou o pagamento de indenizações milionárias à família, incluindo um valor diário enquanto o paradeiro do pastor permanecer desconhecido.

O sequestro que chocou o país

Raymond Koh foi sequestrado em fevereiro de 2017, por um grupo de homens mascarados armados, em uma operação extremamente coordenada e registrada por câmeras de segurança.

O vídeo, amplamente divulgado na imprensa local, mostrava o carro do pastor sendo interceptado em plena via pública, sem que os criminosos fizessem qualquer contato posterior ou pedido de resgate.

O caso gerou enorme repercussão na Malásia e mobilizou organizações de direitos humanos. A esposa, Susanna Liew, iniciou uma batalha solitária por respostas, enfrentando longos anos de silêncio, desconfiança e versões contraditórias das autoridades.

A confissão que mudou tudo

Em 2018, uma reviravolta: um sargento da polícia procurou a esposa de outro desaparecido, o ativista Amri Che Mat, e revelou que ambos, Amri e Koh, haviam sido sequestrados pela divisão especial da Polícia Real da Malásia.

O policial afirmou que os dois homens eram vistos como ameaça ao islã, religião majoritária do país: Koh por seu trabalho como pastor cristão e Amri por divulgar o islamismo xiita, proibido na Malásia.

A confissão foi posteriormente confirmada por uma investigação independente da Comissão de Direitos Humanos da Malásia, que também ligou o caso a um veículo dourado utilizado em ambos os sequestros, rastreado até um agente da mesma divisão policial.

Em 2019, o relatório oficial concluiu que o desaparecimento de Raymond Koh foi planejado e executado por autoridades do Estado.

O veredito histórico

Em decisão inédita, a Suprema Corte malaia reconheceu a culpa de oficiais da Polícia Real e do próprio governo pelo sequestro. O juiz responsável destacou que os agentes atuaram sob “autoridade do Estado”, configurando responsabilidade direta do governo.

Além da reparação moral, o tribunal determinou que o Estado pague 10 mil ringgits (cerca de R$ 11 mil) por cada dia de desaparecimento, valor que já ultrapassa R$ 35 milhões.

A quantia será depositada em um fundo fiduciário até que o paradeiro do pastor seja oficialmente revelado.

Entre o perdão e a justiça

Hoje com 69 anos, Susanna Liew se tornou símbolo de resistência e fé. Premiada com a Medalha Internacional Mulheres de Coragem pelo governo dos Estados Unidos, ela percorreu o mundo denunciando desaparecimentos forçados e pedindo transparência às autoridades malaias.

“Durante o julgamento, eu queria apertar o pescoço dos responsáveis”, contou em entrevista recente. “Mas, quando olhei para eles, percebi que não sentia mais ódio. Eu quero justiça, não vingança.”

Liew pede agora a criação de um órgão independente de controle policial e de uma comissão de inquérito permanente sobre casos de desaparecimentos forçados. Nenhum dos policiais envolvidos foi preso, e um deles chegou a ser promovido.

Mesmo diante das adversidades, ela diz que mantém a esperança de reencontrar o marido:

“Se ele está morto, queremos ao menos enterrá-lo. Se estiver vivo, queremos abraçá-lo. Mas acima de tudo, queremos a verdade.”