A exposição contínua à poeira presente em determinados ambientes profissionais pode provocar doenças respiratórias graves e de evolução prolongada. No Espírito Santo, a silicose é o principal tipo de pneumoconiose registrado em 2026 e corresponde a cerca de 85% das ocorrências contabilizadas nos primeiros sete meses do ano.
Dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) apontam 47 registros de pneumoconioses entre janeiro e julho. Desse total, 40 foram casos de silicose. O número acumulado no período já representa uma parcela significativa das 51 ocorrências registradas durante todo o ano de 2025.
A maior concentração dos casos deste ano está em Barra de São Francisco, na região Noroeste do Espírito Santo. O município reúne aproximadamente 70% das notificações estaduais.
A silicose está relacionada à exposição prolongada à sílica cristalina, uma substância encontrada em materiais minerais e presente em atividades como extração, corte e beneficiamento de rochas. A entrada contínua dessas partículas no sistema respiratório pode desencadear um processo inflamatório permanente e provocar alterações no tecido pulmonar.
Segundo o pneumologista Henrique Kruger Calvão, a exposição à sílica pode desencadear uma inflamação crônica nos pulmões. Com o passar do tempo, esse processo pode evoluir e comprometer progressivamente a capacidade respiratória, sendo que, em determinados casos, os danos são permanentes.
Setor de rochas concentra trabalhadores expostos
As atividades relacionadas à extração e ao processamento de pedras, areia e argila estão entre aquelas que apresentam maior exposição à poeira mineral. No Espírito Santo, o setor de mármore e granito reúne centenas de trabalhadores que desenvolveram silicose ao longo dos anos.
Segundo o Sindicato dos Trabalhadores do Mármore e Granito do Espírito Santo (Sindimármore), mais de 260 casos da doença já foram registrados entre profissionais do segmento.
Um dos trabalhadores afetados é Izaias Vieira da Cruz, de 54 anos. Ele entrou no setor de rochas aos 18 anos e descobriu a doença durante exames de rotina. Quando recebeu o diagnóstico, já apresentava nódulos calcificados nos pulmões e a silicose estava em estágio avançado.
Izaias deixou de trabalhar e se aposentou no final de 2025. Atualmente, relata dificuldades para realizar atividades que exigem esforço físico, além de cansaço, fraqueza e dores nas articulações. A falta de ar também faz parte da rotina do aposentado.
Outro caso é o de Elis Márcio Coelho, também de 54 anos. Ele trabalhou durante 11 anos no setor de rochas e precisou se aposentar em 2014 devido à silicose. Com a progressão da doença, o comprometimento pulmonar se agravou e ele passou por um transplante de pulmão em 2018.
Após o procedimento, Elis afirma que sua qualidade de vida melhorou e que passou a respirar com muito mais facilidade.
Controle da poeira ajuda a reduzir riscos
A prevenção da silicose depende principalmente da redução da exposição dos trabalhadores à poeira mineral. Medidas adotadas diretamente nos locais de trabalho podem diminuir a quantidade de partículas suspensas no ar e, consequentemente, o risco de inalação.
Entre as estratégias utilizadas estão a modernização de equipamentos, o afastamento do trabalhador das áreas de maior emissão de poeira e a utilização de água durante determinados processos de corte para evitar que as partículas permaneçam suspensas.
Equipamentos de proteção individual (EPIs) também fazem parte das medidas de segurança, embora devam estar associados a outras ações de controle da exposição.
O coordenador de segurança do trabalho Cleber Santana explica que empresas do setor podem combinar medidas administrativas e tecnológicas para reduzir o contato direto dos funcionários com a poeira de sílica.
O Sindimármore também afirma atuar na prevenção da doença e no encaminhamento de denúncias relacionadas à exposição à poeira mineral. De acordo com o presidente da entidade, Reginaldo Celia, o sindicato já ingressou com 143 ações civis públicas desde 2006 com o objetivo de combater a presença da poeira mineral nos ambientes de trabalho.
A adoção de medidas preventivas é considerada fundamental, principalmente porque a silicose pode evoluir de forma progressiva e provocar comprometimento permanente da função pulmonar.