Debêntures: entenda como funcionam e quais riscos o investidor deve observar em meio à crise da Apex

A crise envolvendo a Apex Partners colocou as debêntures no centro das atenções. Documentos apresentados à Justiça apontam que aproximadamente R$ 452,1 milhões dos R$ 985,6 milhões em passivos informados estão relacionados a obrigações desse tipo, o equivalente a cerca de 46% do total.

O cenário chama atenção para uma modalidade de investimento que, embora esteja presente no mercado de capitais, pode ser menos conhecida do que produtos bancários tradicionais, como os CDBs.

As debêntures são títulos de dívida emitidos por empresas com o objetivo de levantar recursos. Ao adquirir um desses papéis, o investidor, na prática, empresta dinheiro à companhia e passa a ter o direito de receber o valor aplicado conforme as condições estabelecidas na emissão.

Uma diferença importante em relação aos CDBs é que as debêntures não possuem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Dessa forma, em caso de dificuldades financeiras ou inadimplência da empresa, não existe essa proteção para ressarcir automaticamente o investidor.

Como funcionam as debêntures?

Para captar recursos, a empresa estabelece as características da emissão, incluindo prazo, forma de remuneração, pagamento dos juros e condições para devolução do principal.

O investidor avalia essas informações e decide se deseja participar da operação. Se comprar o título, passa a ter uma relação de credor com a companhia.

Isso é diferente de adquirir ações. Quem compra uma ação se torna sócio da empresa e participa dos resultados de acordo com as regras do investimento. Já quem compra uma debênture está financiando a companhia e espera receber o dinheiro de volta acrescido da remuneração acordada.

Por que o retorno pode ser maior?

Uma das características que podem chamar a atenção dos investidores são as taxas oferecidas.

No caso das operações relacionadas à Apex mencionadas nos documentos, havia remunerações que variavam entre 110% e 130% do CDI, além de alternativas atreladas ao IPCA com acréscimos que chegavam a 1,3% ao mês.

Uma taxa elevada, porém, não deve ser analisada isoladamente. Quanto maior a remuneração oferecida por um título de dívida, mais importante se torna compreender os riscos envolvidos e a capacidade financeira da empresa de cumprir o compromisso.

Isso porque o pagamento depende diretamente da saúde financeira da companhia responsável pela dívida.

O que o investidor deve analisar?

Antes de aplicar em uma debênture, é importante avaliar não apenas a rentabilidade prometida, mas também as características da empresa e da própria emissão.

Entre os pontos que merecem atenção estão:

  • situação financeira da companhia;
  • nível de endividamento;
  • prazo para pagamento;
  • forma de remuneração;
  • garantias oferecidas, quando houver;
  • condições previstas para a emissão;
  • finalidade dos recursos captados;
  • capacidade da empresa de gerar receitas para honrar a dívida.

Também é importante entender de que maneira o dinheiro obtido com a emissão será utilizado.

Para onde vai o dinheiro?

A destinação dos recursos captados é outro aspecto relevante na análise de uma debênture.

A documentação da emissão deve informar a finalidade do dinheiro, conhecida no mercado como use of funds. A informação permite ao investidor compreender qual será a utilização dos recursos e avaliar se a estratégia apresentada pela empresa é compatível com sua capacidade de gerar receitas e cumprir as obrigações assumidas.

No caso da Apex, levantamentos financeiros citados nos documentos apontam que uma parcela significativa dos recursos captados teria sido direcionada para despesas operacionais do grupo.

Esse tipo de informação reforça a importância de conhecer não apenas a taxa oferecida, mas também a estrutura financeira da operação.

Rentabilidade não deve ser analisada sozinha

Uma debênture com remuneração elevada pode parecer mais atrativa à primeira vista. Entretanto, o retorno potencial precisa ser comparado ao risco de crédito assumido pelo investidor.

Em outras palavras, não basta perguntar quanto o título vai pagar. Também é necessário avaliar quem está tomando o dinheiro emprestado, para que os recursos serão utilizados e quais condições existem para o pagamento da dívida.

No caso de uma empresa que enfrente problemas financeiros, o risco de inadimplência pode se tornar relevante, especialmente porque as debêntures não contam com a garantia do FGC.

Por isso, antes de investir, é fundamental ler a documentação da emissão e compreender as condições do título. Em caso de dúvida, a orientação de um profissional habilitado pode ajudar na avaliação dos riscos e na adequação do investimento ao perfil do investidor.