ES pode quebrar tabu histórico e eleger dois senadores de esquerda ou centro-esquerda

O Espírito Santo pode viver, em 2026, uma situação inédita na história política recente do Estado. Desde o início da Nova República, em 1985, os eleitores capixabas nunca elegeram, na mesma eleição, dois senadores identificados com a esquerda ou a centro-esquerda.

O cenário pode mudar neste ano, quando estarão em disputa duas cadeiras para o Senado em cada estado. Entre os nomes que aparecem na corrida estão o senador Fabiano Contarato (PT) e o ex-governador Renato Casagrande (PSB), ambos ligados ao campo progressista.

Como funciona a eleição para o Senado

O Senado Federal é formado por 81 parlamentares, sendo três representantes de cada estado e do Distrito Federal. As vagas são renovadas de maneira alternada: em uma eleição são escolhidos dois senadores por unidade da Federação e, quatro anos depois, apenas um.

Em 2026, portanto, cada eleitor poderá escolher dois candidatos ao Senado. Esse modelo ocorre a cada oito anos para cada estado.

Desde 1985, houve cinco eleições em que os estados escolheram dois senadores: 1986, 1994, 2002, 2010 e 2018. Em nenhuma delas o Espírito Santo elegeu dois nomes classificados como integrantes da esquerda ou da centro-esquerda.

Histórico das eleições

Em 1986, os eleitos foram Gerson Camata e João Calmon. O primeiro tinha perfil de centro, enquanto Calmon era identificado com posições mais conservadoras.

Em 1994, Gerson Camata e José Ignacio conquistaram as cadeiras. A trajetória de Ignacio passou por diferentes posições políticas ao longo dos anos, transitando entre o centro e a centro-direita.

Já em 2002, Gerson Camata e Magno Malta foram eleitos. Malta consolidou sua atuação política no campo conservador e, posteriormente, tornou-se uma das principais figuras da direita capixaba.

Na eleição de 2010, as vagas ficaram com Ricardo Ferraço e Magno Malta. Ferraço construiu uma trajetória associada à centro-direita, enquanto Malta manteve sua atuação no campo conservador.

Em 2018, Fabiano Contarato e Marcos do Val chegaram ao Senado. Contarato foi eleito pela Rede e posteriormente ingressou no PT, passando a se identificar claramente com a esquerda. Marcos do Val, por sua vez, adotou uma postura política mais alinhada à direita durante seu mandato.

Assim, a eleição de 2026 apresenta uma configuração diferente das anteriores.

Casagrande e Contarato no mesmo campo político

A presença de Renato Casagrande e Fabiano Contarato entre os nomes competitivos abre a possibilidade de o Espírito Santo eleger, pela primeira vez, dois senadores ligados ao campo progressista em uma mesma eleição.

Casagrande tem uma trajetória política associada ao centro-esquerda e ao PSB. Já Contarato, atualmente no PT, possui uma posição mais claramente identificada com a esquerda.

A eventual eleição dos dois, entretanto, dependerá da distribuição dos votos entre os diversos candidatos e da capacidade de cada grupo político de mobilizar seu eleitorado.

Um dos elementos que pode influenciar a disputa é a estratégia do chamado segundo voto. Como cada eleitor poderá escolher dois nomes, alianças e orientações partidárias podem ter peso importante na definição das duas vagas.

Disputa pelo segundo lugar pode ser decisiva

Enquanto alguns candidatos aparecem com maior força na corrida, a briga pela segunda cadeira tende a ser mais aberta. Nesse cenário, Contarato pode encontrar espaço entre os eleitores de esquerda, especialmente por ter uma concorrência menor dentro desse campo político.

Ao mesmo tempo, a direita apresenta uma quantidade maior de candidaturas, o que pode provocar uma divisão de votos entre diferentes nomes.

Entre os postulantes estão representantes de diferentes partidos e correntes políticas, como Maguinha Malta, Evair de Melo, Marcos do Val, Wellington Callegari e Leonardo Monjardim, além de outros candidatos que também buscam espaço na disputa.

Essa pulverização pode tornar a eleição especialmente competitiva e fazer com que a estratégia de segundo voto tenha papel relevante.

Um possível novo capítulo na política capixaba

A eventual eleição simultânea de Casagrande e Contarato representaria uma mudança em relação ao padrão observado nas últimas décadas. Desde a redemocratização, o eleitorado do Espírito Santo nunca colocou duas figuras do campo progressista nas duas vagas disputadas em uma mesma eleição para o Senado.

O resultado de 2026, portanto, poderá entrar para a história política do Estado, seja pela manutenção do padrão observado desde 1986, seja pela quebra de um tabu que permanece há quatro décadas.

Mais do que uma disputa entre nomes, a eleição também colocará em teste a força das diferentes correntes políticas no Espírito Santo e a capacidade dos candidatos de conquistar os dois votos que cada eleitor terá direito de dar para o Senado.