Com menos de dois meses de atuação itinerante pelo Espírito Santo, o programa Guardiões da Infância, promovido pela Assembleia Legislativa (Ales), alcançou a marca de 800 adultos capacitados. O foco da iniciativa é qualificar familiares e profissionais das áreas de educação, saúde e assistência social, transformando-os em multiplicadores capazes de identificar e prevenir casos de violência contra crianças e adolescentes. Até o momento, as ações integradas já passaram por seis municípios capixabas: São Domingos do Norte, Pedro Canário, Jaguaré, Itapemirim, Conceição do Castelo e Domingos Martins.
O presidente da Ales, deputado estadual Marcelo Santos (União), ressalta que a essência do projeto reside no esforço conjunto. Segundo o parlamentar, a proteção infantojuvenil exige a articulação direta entre as esferas familiar, escolar e o poder público, permitindo que situações de vulnerabilidade sejam detectadas com maior rapidez e eficiência. Sob a coordenação de Joelma Costalonga, secretária da Casa dos Municípios, setor que articula a expansão do programa junto aos gestores locais, o projeto já colhe retornos positivos de servidores públicos que passaram a adotar um olhar mais atento aos sinais de comportamento de alunos e pacientes.
Rompendo tabus e aplicando a Escuta Protegida
Um dos principais pilares do cronograma técnico e pedagógico, ministrado pelo psicólogo forense Rafael Monteiro, é capacitar os profissionais para agirem com segurança diante de denúncias ou suspeitas. O especialista alerta que a falta de preparo institucional gera insegurança e pode levar à revitimização das crianças por meio de interrogatórios excessivos. Para evitar isso, as palestras e workshops sugerem protocolos claros e fluxos de atendimento adequados a cada órgão, em total conformidade com a Lei Federal 13.431/2017 (Lei da Escuta Protegida), que preza por um acolhimento humanizado em ambientes tranquilos.
As capacitações orientam os participantes sobre como direcionar os casos de forma correta aos canais oficiais de acolhimento e denúncia, como:
- Conselhos Tutelares;
- Unidades Básicas de Saúde (UBS);
- Delegacias Especializadas;
- Equipes do Cras e do Creas.
O combate à negligência emocional
O programa também joga luz sobre os fatores silenciosos que facilitam a aproximação de abusadores, apontando a negligência emocional como um ponto crítico. De acordo com Monteiro, quando a criança não encontra validação de suas emoções e canais abertos de afeto e diálogo dentro de casa, ela se torna mais vulnerável a manipulações externas. A mudança de perspectiva proposta pelo treinamento visa fazer com que famílias e profissionais passem a observar não apenas quem oferece perigo imediato, mas sim quem está exercendo a supervisão e o suporte afetivo adequados àquela criança.
Estatísticas nacionais indicam que cerca de 70% dos casos de violência ocorrem dentro do próprio ambiente familiar, praticados por pessoas de confiança da vítima. Por essa razão, o Guardiões da Infância busca desmistificar o estereótipo do agressor desconhecido. Ao munir professores, médicos, assistentes sociais, agentes de segurança e líderes comunitários com informações sobre o desenvolvimento infantojuvenil, o projeto cria um cinturão de segurança para romper ciclos de silêncio e fortalecer os vínculos familiares saudáveis em todo o estado.