Maria da Penha reforça importância da denúncia e defende avanços no combate à violência contra a mulher

Referência nacional no enfrentamento à violência doméstica, Maria da Penha Fernandes voltou a defender a importância da denúncia e da ampliação das políticas de proteção às mulheres. Às vésperas dos 20 anos da legislação que leva seu nome, ela destacou conquistas alcançadas desde a criação da lei, mas alertou que ainda existem obstáculos para garantir segurança e acolhimento às vítimas.

A farmacêutica se tornou símbolo dessa luta após sobreviver a uma tentativa de feminicídio praticada pelo então marido, em 1983. O episódio deixou sequelas permanentes e impulsionou uma mobilização que culminou, anos depois, na criação da Lei Maria da Penha, sancionada em 2006.

Ao fazer um balanço das últimas duas décadas, Maria da Penha afirmou que a legislação representou um marco histórico para a proteção das mulheres brasileiras. No entanto, ressaltou que a expectativa inicial de uma rápida redução dos casos de violência não se confirmou, evidenciando a profundidade do problema na sociedade.

Segundo ela, o machismo estrutural ainda influencia comportamentos e dificulta o enfrentamento da violência de gênero. A ativista relembrou situações em que chegou a ser questionada sobre possíveis motivos que justificariam a agressão sofrida, exemplo que considera reflexo de uma cultura que historicamente responsabilizou as vítimas.

Para Maria da Penha, além da aplicação rigorosa da legislação, é fundamental que profissionais do sistema de justiça, da segurança pública e da comunicação estejam preparados para lidar com os casos de forma adequada e sem preconceitos.

Ela também chamou atenção para as novas formas de violência que surgiram com o avanço da tecnologia, como a divulgação de conteúdos manipulados digitalmente e outras práticas virtuais que atingem mulheres. Na avaliação dela, a legislação precisa ser constantemente atualizada para acompanhar essas mudanças e garantir proteção efetiva.

Outro desafio apontado é a desigualdade no acesso aos serviços de proteção entre grandes centros urbanos e municípios menores. Segundo Maria da Penha, muitas cidades do interior ainda carecem de estruturas especializadas para atender mulheres em situação de violência.

Nesse contexto, ela defende que unidades de saúde e escolas desempenhem papel estratégico na identificação de casos e no acolhimento das vítimas. Para a ativista, profissionais capacitados nesses ambientes podem contribuir para romper ciclos de violência que muitas vezes permanecem ocultos.

A educação também é vista como ferramenta essencial na prevenção. Maria da Penha acredita que temas relacionados ao respeito, à igualdade de gênero e aos direitos humanos devem ser trabalhados continuamente durante a formação escolar, contribuindo para a construção de uma sociedade menos violenta.

Ao falar diretamente às mulheres que enfrentam situações de agressão, ela reforçou a importância de buscar ajuda e utilizar os canais de denúncia disponíveis. Segundo ela, o silêncio favorece a continuidade da violência e impede que as vítimas tenham acesso à rede de proteção existente.

Mesmo após décadas dedicadas à causa, Maria da Penha afirma manter o otimismo em relação ao futuro. Sua expectativa é que o fortalecimento da educação, das políticas públicas e da conscientização social permita uma redução significativa dos casos de violência de gênero nos próximos anos.

Ela acredita que o cenário ideal será alcançado quando o respeito às mulheres estiver plenamente incorporado à cultura da sociedade, tornando desnecessária a existência de legislações específicas para garantir direitos básicos e proteção.