32 anos após último show no ES, irmã de Renato Russo relembra cantor e legado da Legião Urbana

Mais de três décadas depois da última apresentação de Renato Russo com a Legião Urbana no Espírito Santo, as lembranças daquele período continuam vivas. Para o público, o cantor se tornou um dos maiores nomes do rock brasileiro e um compositor que marcou gerações. Para Carmen Teresa Manfredini, irmã caçula do artista, porém, a memória mais forte é a do irmão que existia longe dos palcos.

Renato Russo morreu em outubro de 1996, aos 36 anos, em decorrência de complicações relacionadas à Aids. Mesmo após quase três décadas de sua morte, suas músicas continuam presentes na rotina de antigos e novos fãs.

Canções da Legião Urbana seguem sendo ouvidas em plataformas digitais, tocadas em rodas de violão e compartilhadas por pessoas que encontram nas letras do compositor temas que permanecem atuais.

O irmão por trás do ídolo

Carmen conta que prefere lembrar Renato pelo convívio familiar e pelos momentos que dividiu com ele. Antes da fama e do reconhecimento nacional, ele era simplesmente Júnior, como era chamado dentro de casa.

Segundo ela, o cantor tinha forte ligação com a família e gostava de atividades tranquilas, como ler, assistir a filmes e ouvir música. Apesar de apresentar um perfil mais reservado e introspectivo em algumas situações, também tinha um lado bem-humorado que aparecia principalmente entre pessoas próximas.

A irmã lembra que costumava ouvi-lo compondo no quarto ao lado e destaca o jeito brincalhão do cantor, que gostava de imitar outras pessoas e fazer os familiares rirem.

O talento para escrever e a paixão pela música já chamavam atenção desde a juventude. A família, porém, não imaginava que aquelas composições alcançariam tamanha dimensão e seriam conhecidas por pessoas de diferentes gerações.

“Sabíamos que ele tinha um dom, mas nunca pensamos que chegaria a reunir multidões. Foi uma surpresa muito boa”, recorda Carmen.

Renato tinha dúvidas sobre o próprio legado

Mesmo depois de alcançar enorme popularidade, Renato Russo teria convivido com incertezas sobre a permanência de seu trabalho. De acordo com Carmen, o irmão algumas vezes questionava se suas músicas continuariam sendo ouvidas no futuro.

“Às vezes ele acreditava que sim, outras vezes não. Ele perguntava: ‘Será que as pessoas vão me ouvir por muito tempo?'”, relata.

O tempo acabou respondendo à dúvida. As composições continuam chegando a novos públicos, inclusive a jovens que nasceram depois da última apresentação da Legião Urbana no Espírito Santo e até após a morte do cantor.

Entre as músicas que permanecem especialmente importantes para Carmen estão “Clarisse”, “Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto”, “Meninos e Meninas”, “Lobisomem”, “Vento no Litoral”, “Giz” e “Monte Castelo”.

A ligação de Renato Russo com o Espírito Santo

A relação de Renato Russo com o Espírito Santo começou antes mesmo de sua trajetória de sucesso com a Legião Urbana.

Carmen conta que a família fez uma viagem de carro pelo Estado, passando por Vitória e Vila Velha. Durante o passeio, eles conheceram as praias capixabas e também visitaram a fábrica da Chocolates Garoto.

Para a irmã, aquela viagem ficou marcada como uma experiência especial. Renato teria gostado especialmente de conhecer o Espírito Santo.

Anos depois, já reconhecido nacionalmente, o cantor retornou ao Estado com a Legião Urbana para uma apresentação que entraria para a história como sua última passagem pelos palcos capixabas.

Último show no Estado

A apresentação aconteceu em um momento importante da vida pessoal de Renato Russo. De acordo com Carmen, em 1994 o cantor atravessava uma fase de recuperação após problemas relacionados ao uso de drogas e outros vícios.

A passagem pelo Espírito Santo acabou se tornando uma lembrança especial para os fãs e, décadas depois, também ganhou um significado ainda maior diante da trajetória posterior do artista.

O que naquele momento era apenas mais um show da Legião Urbana acabou se transformando na última oportunidade de o público capixaba acompanhar Renato Russo ao vivo.

Um legado que atravessa gerações

A morte precoce do cantor não interrompeu a trajetória de sua obra. Pelo contrário: as músicas escritas por Renato Russo continuaram circulando e conquistando ouvintes que não acompanharam a Legião Urbana durante o auge da banda.

A força das letras, marcadas por temas como relacionamentos, conflitos pessoais, juventude, política, solidão e questões existenciais, ajudou a manter a obra atual mesmo com a passagem do tempo.

Para Carmen, no entanto, existe uma diferença entre o ídolo nacional e o homem que permanece em suas lembranças. Enquanto milhões de fãs reconhecem Renato Russo como poeta e símbolo do rock brasileiro, ela preserva principalmente a imagem do irmão que lia, ouvia música, assistia a filmes, compunha no quarto e fazia a família rir.

É essa memória íntima que permanece ao lado do legado de um artista cuja voz e cujas palavras continuam encontrando novos ouvintes décadas depois.