Pensamento acelerado, perfeccionismo e necessidade de estímulos podem estar entre as características, mas não são suficientes para confirmar altas habilidades
A superdotação nem sempre é identificada durante a infância. Em muitas mulheres, determinadas características podem passar despercebidas por anos ou até serem associadas a ansiedade, perfeccionismo, inquietação ou dificuldades de adaptação.
O assunto ganhou maior visibilidade com relatos públicos de mulheres conhecidas, como Fabiana Karla, Shakira, Natalie Portman, Geovanna Tominaga e Bruna Louise, que já falaram sobre altas habilidades. A discussão também ajuda a mostrar que a identificação pode ocorrer em diferentes fases da vida.
Entre os sinais que podem aparecer estão a necessidade constante de aprender, pensamento rápido, sensibilidade elevada, autocobrança e sensação de não se encaixar em determinados ambientes. No entanto, especialistas ressaltam que nenhum desses aspectos, isoladamente, confirma a superdotação.
1. Sentir-se diferente desde criança
Algumas mulheres com altas habilidades relatam que, desde os primeiros anos de vida, percebiam diferenças na maneira como pensavam e enxergavam o mundo.
Perguntas consideradas profundas para a idade, interesses intensos e uma vontade constante de entender como as coisas funcionam podem fazer parte desse perfil. Quando não encontram pessoas com interesses semelhantes ou com ritmo de raciocínio compatível, algumas meninas podem acabar sendo vistas apenas como tímidas ou com dificuldade de interação social.
De acordo com a psiquiatra Fabrícia Signorelli, especialista em TDAH, TEA e altas habilidades, essa percepção de diferença pode acompanhar a mulher por muitos anos sem que exista uma explicação clara para ela.
2. Perfeccionismo acompanhado de muita cobrança
A busca por resultados elevados também pode aparecer entre mulheres com altas habilidades. O problema ocorre quando a necessidade de fazer tudo da melhor maneira possível se transforma em uma cobrança interna excessiva.
A psiquiatra Jessica Martani explica que o perfeccionismo precisa ser analisado dentro do contexto geral da pessoa. Segundo ela, a busca por domínio e realização, quando associada a pensamento acelerado e necessidade frequente de novos desafios, pode indicar que vale a pena investigar mais profundamente o funcionamento daquela mulher.
Isso significa que ser perfeccionista, sozinho, não é indicativo de superdotação.
3. Pensamento rápido pode ser confundido com ansiedade
Uma mente que funciona de maneira muito acelerada pode ser interpretada como sinal de ansiedade. Entretanto, as duas situações não são necessariamente a mesma coisa e também podem existir simultaneamente.
Mulheres que questionam constantemente, aprofundam-se em assuntos específicos e procuram estímulos intelectuais podem ser vistas apenas como inquietas ou ansiosas.
Para Jessica Martani, é importante avaliar o funcionamento global antes de estabelecer qualquer conclusão. Características semelhantes podem estar relacionadas à personalidade, a altas habilidades, a transtornos ou à combinação de diferentes fatores.
4. Desinteresse por tarefas repetitivas
Atividades que oferecem pouca novidade ou desafio podem provocar desmotivação em algumas pessoas com altas habilidades. Na escola, isso pode aparecer como falta de interesse em determinados conteúdos. No trabalho, pode se manifestar por frustração ou perda de engajamento diante de tarefas muito repetitivas.
Isso não significa, porém, que uma pessoa superdotada necessariamente tenha desempenho excepcional em todas as áreas.
Fabrícia Signorelli destaca que as habilidades podem aparecer de maneira desigual. Uma pessoa pode apresentar capacidade muito acima da média em um determinado campo e desempenho comum em outro.
Por isso, o fato de alguém não se destacar em todas as atividades não elimina a possibilidade de altas habilidades.
5. Esconder capacidades para conseguir se adaptar
Outro comportamento que pode dificultar a identificação é a tentativa de esconder conhecimentos ou capacidades para evitar rejeição e facilitar a adaptação ao grupo.
Algumas meninas podem aprender desde cedo a controlar a maneira como demonstram suas habilidades para não chamar atenção ou parecer diferentes dos colegas. Esse processo pode fazer com que familiares e professores não reconheçam determinadas características.
O psicólogo e neuropsicólogo Damião Silva, especialista em superdotação, TDAH e autismo, destaca que ainda existem vieses relacionados à identificação das altas habilidades em mulheres.
Durante muito tempo, a imagem da pessoa superdotada esteve ligada principalmente a desempenho acadêmico excepcional, produtividade e grande destaque. Essas manifestações, entretanto, não aparecem necessariamente dessa forma em todas as mulheres.
Avaliação profissional é fundamental
Ter pensamento acelerado, ser perfeccionista, apresentar sensibilidade elevada ou sentir-se diferente não significa, por si só, que uma pessoa seja superdotada.
Segundo Damião Silva, características como intensidade emocional, autocrítica elevada, interesses profundos, necessidade de aprofundamento e sensação de inadequação podem aparecer em algumas mulheres com altas habilidades, mas nenhuma delas é suficiente para estabelecer uma identificação.
A avaliação pode acontecer inclusive na vida adulta, especialmente quando a pessoa passa a buscar explicações para experiências relacionadas à aprendizagem, ao trabalho, aos relacionamentos ou à própria maneira de pensar.
O especialista ressalta que uma avaliação adequada deve ser ampla e não se limitar ao teste de QI. É necessário considerar aspectos cognitivos, emocionais, comportamentais, históricos e contextuais.
A identificação das altas habilidades pode ajudar algumas mulheres a compreender melhor experiências vividas ao longo da vida e reconhecer suas potencialidades. Ao mesmo tempo, é importante evitar que a superdotação seja utilizada automaticamente para explicar todos os comportamentos ou dificuldades de uma pessoa.