Advogados apontam desaparecimento de documentos do Caso Araceli após mais de 50 anos

Mais de cinco décadas após o assassinato de Araceli Cabrera Crespo, de 8 anos, novas dúvidas surgem em torno do processo que marcou a história do Espírito Santo. Advogados identificaram o desaparecimento de documentos considerados essenciais nos autos da ação penal, incluindo decisões que encerraram oficialmente o caso.

A constatação foi feita durante a atuação dos advogados Fernando Colombi da Silva e Vanderson Leocádio Américo, responsáveis pela defesa de William Santos Monzoli, acusado de matar Dante Brito Michelini em janeiro deste ano. Segundo o depoimento de William, o crime teria sido motivado pela crença de que Dante estaria envolvido em crimes contra crianças e teria ligação com o Caso Araceli.

Com o objetivo de verificar as informações mencionadas pelo cliente, os advogados solicitaram acesso ao processo histórico. Inicialmente, a consulta foi realizada na versão digital dos autos, onde já foram percebidas falhas e a ausência de documentos. Posteriormente, mediante autorização judicial, a equipe teve acesso ao processo físico arquivado.

Durante a análise, os advogados verificaram que parte dos volumes foi localizada, porém diversos documentos importantes não estavam disponíveis. Entre as peças ausentes estão o recurso apresentado pelo Ministério Público contra a absolvição dos acusados, as contrarrazões das defesas, o parecer da Procuradoria de Justiça, o acórdão que julgou a apelação, a decisão que extinguiu o processo e a certidão de trânsito em julgado.

Na avaliação da defesa, a ausência desses registros impede a compreensão completa do desfecho jurídico do caso e compromete tanto a preservação da memória histórica quanto o direito à ampla defesa de seu cliente.

Diante da situação, os advogados encaminharam um ofício à 3ª Vara Criminal de Vitória e à Presidência do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), solicitando a localização ou recuperação dos documentos desaparecidos, além da restauração completa do processo.

Outro ponto levantado diz respeito às condições da digitalização dos autos. Segundo os advogados, fotografias, documentos e volumes com recortes de jornais da época apresentam baixa qualidade, dificultando a leitura e a identificação de informações relevantes.

No pedido, a defesa argumenta que o Caso Araceli possui importância histórica para o Espírito Santo e que seu acervo deve ser preservado de forma adequada para garantir acesso a pesquisadores, historiadores, operadores do Direito e à sociedade.

Posicionamento do TJES

Em nota, o Tribunal de Justiça do Espírito Santo informou que o acesso ao processo foi disponibilizado aos advogados regularmente habilitados. O órgão afirmou ainda que, até o momento, não existe decisão judicial reconhecendo oficialmente o desaparecimento das peças apontadas pela defesa.

O tribunal acrescentou que qualquer providência relacionada ao caso será analisada dentro do próprio processo, seguindo os procedimentos legais e observando os princípios da publicidade e da transparência.