Governo do ES recua de doação e busca na Justiça retomada de área ocupada por famílias em Linhares

Uma área com mais de 4,1 milhões de metros quadrados, localizada no distrito de Pontal do Ipiranga, em Linhares, está no centro de uma disputa judicial após o Governo do Espírito Santo desistir de transferir o imóvel para a União. A administração estadual solicitou à Justiça a retomada da posse do terreno, atualmente ocupado por famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

A área havia sido destinada, em 2024, para transferência ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que pretendia implantar um projeto de assentamento para 31 famílias. No entanto, a Procuradoria-Geral do Estado (PGE) informou à Justiça que não houve acordo durante as tentativas de conciliação e pediu o prosseguimento da ação de reintegração de posse, que estava suspensa.

De acordo com o governo estadual, a Secretaria de Gestão e Recursos Humanos (Seger) manifestou interesse em manter a propriedade sob administração do Estado, motivo pelo qual a proposta de doação foi retirada.

Posteriormente, o Ministério Público do Espírito Santo (MPES) também se posicionou favoravelmente ao andamento do processo, destacando que as tentativas de solução consensual foram encerradas e que não haveria justificativa para novos adiamentos. O órgão defendeu a continuidade da ação e a concessão da reintegração definitiva da área, inclusive com apoio policial, caso seja necessário.

O caso segue em análise pela Vara da Fazenda Pública de Linhares, que ainda deverá decidir se acolhe ou não o pedido apresentado pelo Estado. Até o momento, o governo não informou qual será a futura destinação do imóvel caso recupere a posse.

Incra defende manutenção das famílias

O Incra afirmou que considera desnecessária a desocupação da área. Segundo o órgão, a retirada das famílias representaria gastos públicos elevados e poderia causar impactos sociais significativos, uma vez que elas ocupam o local há vários anos.

Ainda conforme o instituto, a doação do terreno foi formalizada em julho de 2024, e os estudos técnicos para implantação do assentamento já haviam sido concluídos. O processo de transferência estaria na etapa final, aguardando apenas pareceres jurídicos, quando o governo estadual decidiu interromper o procedimento.

Defensoria pede mediação

A Defensoria Pública do Espírito Santo também se manifestou no processo e solicitou que o caso seja encaminhado para a Comissão Regional de Soluções Fundiárias do Tribunal de Justiça.

Segundo o órgão, qualquer eventual retirada das famílias deve seguir protocolos que garantam condições adequadas, incluindo estudos sociais, planejamento prévio, definição de um novo local para moradia e atuação conjunta do Poder Judiciário e do município.

Histórico da disputa

O terreno é alvo de disputas desde 2015, quando passou a ser ocupado por integrantes do MST. Antes disso, a área havia sido destinada a um empreendimento que não foi levado adiante.

Em 2021, o Estado ingressou com uma ação para recuperar a posse do imóvel. Durante a tramitação, o processo foi suspenso diversas vezes para permitir negociações entre as partes. A proposta de doação ao Incra, apresentada em 2024, parecia encerrar o impasse, mas a recente mudança de posicionamento do governo fez com que o caso retornasse à esfera judicial.

Movimento contesta decisão

Representantes do MST afirmam que receberam com surpresa o pedido de reintegração. Segundo o movimento, o processo para criação do assentamento já estava em fase avançada, com definição dos lotes e início da construção das moradias.

As famílias informam que desenvolvem atividades agrícolas na área, com produção de culturas como banana, coco, mandioca, acerola e pimenta-do-reino, além da criação de gado. O movimento defende a continuidade do projeto de assentamento e afirma que buscará manter a permanência das famílias no local.